Artigo

Os gêmeos

Os gêmeos

23 de novembro de 2018
Guiomar de Grammont

Os gêmeos

A luz ainda estava acesa no quarto, eu tinha colocado os gêmeos para dormir em uma cama de solteiro, pois estávamos na casa da minha mãe. Eles se acomodaram em lados opostos da cama, com os pezinhos se tocando. Com seus três aninhos, Flora tem os cabelo escuros e encaracolados, já tocando os ombros. Anéis castanhos emolduram o rosto cheio do Rufo. A mãe deles, minha filha Raíssa, nunca tinha cortado seus cabelos, e ficou impressionada de ver que os cabelos de Flora cresciam mais rápido do que os do irmão. Estávamos sempre curiosas sobre como a definição deles como menina e menino pareciam aparecer naturalmente, sem que impuséssemos comportamentos. Dávamos bonecas e carrinhos para ambos, brincávamos de casinha com os dois, juntos. 

Ali, na cama, eles riram um pouco da brincadeira de tocar os pezinhos e, agora, tinham começado a chatear um ao outro. Vim ver porque ainda não tinham dormido e perguntar se queriam que eu contasse uma história, mas logo percebi o motivo da confusão. Flora balançava a cabecinha, inflexível: -  Vou sim, eu vou!... Rufo chorava.  

Retruquei: - Mas como, assim? Vai aonde? Tá na hora de dormir, não é hora de ir a lugar nenhum! 

Chorando, com certo desespero, Rufo apelava: 

- Não Flora, não vai! Você não vai fazer isso! Não vai!

Ela repetia, encantada com a aflição do irmão: - Vou sim! Eu vou!

- O que é que está acontecendo? Perguntei. - Rufo, porque você está chorando? 

Ele explicou, mal conseguindo falar, em meio aos soluços: 

- Vovó, Flora falou que quando crescer vai casar e vai morar em outra casa, longe de mim! E voltou-se para a irmã, chorando: - Você não vai, Flora, não vai... 

Ela continuava repetindo, fazendo biquinho: - Ah, vou sim! Claro que vou! 

Eu os olhei, sorrindo, sem saber o que dizer, em um primeiro momento, pois não queria mentir. Depois descobri uma via: 

- Que é isso, meus amores? Vocês vão estar sempre perto um do outro, a vovó sabe, mesmo quando estiverem longe, viajando, cada um num lugar, vão estar sempre conversando, falando sobre tudo, sempre juntos... 

- Eu não, vovó! Eu vou morar em outra casa, longe dele! 

Rufo soluçava tanto, que me sentei na cama e o peguei no colo, rindo, com Flora ao meu lado. Pedi que ela o abraçasse, pois ele estava triste e, finalmente, ela cedeu. Os dois se abraçaram, juntos, deitados no mesmo travesseiro. Acariciei suas cabecinhas e logo o sono os dominou. 

Fiquei olhando-os muito tempo e refletindo sobre os caminhos da vida, que nos levam a tantos lugares.

Eu entendia os sentimentos do meu netinho. Não é fácil pensar que as pessoas que amamos terão outras vidas, que poderão um dia viver longe da gente. Ainda mais sendo gêmeos, como eles eram. Partilharam do mesmo útero, se desenvolveram como era possível, se tocando e se enrolando mutuamente, no mesmo ventre, em um balé de espaço mínimo. 

Mas um dia teriam que se separar, e essa separação já começara no nascimento. A primeira separação que vive um ser humano, para eles, tinha sido dupla: da mãe e um do outro. 

As pessoas vivem de formas diferentes essa dispersão pelo mundo que já vem apontada na Bíblia. A vida pode nos levar a direções inusitadas, determinadas por fatores que ultrapassam nossa vontade, e que muitas vezes nos surpreendem: estudos, empregos, companheiros... Mas a separação será sempre difícil, sempre haverá algo ou alguém que fica e que gostaríamos de levar conosco pela vida afora. 

E levamos. 

Essa parcela de afeto e união com o outro, tão profunda no caso dos gêmeos, jamais nos deixará. Ficará dentro da gente, por mais que se transforme e pareça esvanecer-se, diante das urgências da vida. O que é sólido não se desmancha no ar, como quiseram advertir Marx e Engels. Esse afeto que vivemos é o amálgama, o modelo a partir do qual iremos construindo as outras experiências da vida. Por isso mesmo, é tão importante. A nossa relação com o mundo e com os outros, pela vida afora, será determinada pela forma como vivemos esses afetos primordiais, que vivem em nós, para sempre. É como uma língua que aprendemos na infância, que se torna orgânica, parte de nós, e é a partir dela que passamos a nos expressar, por toda nossa existência.  

 

 

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